A filosofia do barro

Num tempo que não foi ontem, os eventos da vida aconteciam devagar, num pequeno canteiro de flores coloridas ou entre córregos repletos de girinos.

Entre o cavar à procura de tesouros e encher potinhos com lama que cheirava a pingos de chuva, nasciam todos os dias pequenos hiatos demorados de contemplação. As unhas encardiam-se de histórias silenciosas e à noite sonhávamos com as aventuras do dia por vir.

Quando o barro regressou e invadiu sem pedir licença os meus quarenta anos, desacelerei a morte. Voltei aos torrões e devaneios argilosos.

Nesse reencontro, senti confiança e abracei o mundo… mutante como um girino.

Fiquei rebelde e sem lei… atrai pessoas que não nunca provaram bolos com pedras travestidas de cereja, pessoas que habitam mundos luminosos e efémeros, gente pequena que se baixa sempre que me curvo para ficar pequena também… e assim rimos… juntas… eu por me sentir refletida, elas porque sorrir é um ato de comunicação generosa natural.

Na filosofia do barro facilmente adentramos num universo ancestral e comunitário. Na filosofia do barro a intersubjetividade e a interdependência dão as mãos e olham, com distância, os que ainda competem. Na filosofia do barro fazemos morada e, nessa amorosa morada,  construímos castelos que uma onda até poderá destruir, mas que permanecerão eternos nos segredos de um búzio-infância.