Mãos que Pensam

O processo criativo é frequentemente entendido como uma sequência em que primeiro surge uma ideia e, posteriormente, as mãos executam aquilo que foi mentalmente concebido. Contudo, quando trabalhamos directamente com a matéria, esta separação entre pensamento e acção torna-se menos evidente. As mãos podem começar a agir antes de existir uma intenção plenamente formulada: tocam, pressionam, amassam, dobram, exploram e transformam. No contacto com o barro, o gesto não é apenas a execução de um pensamento prévio; é também uma forma de exploração através da qual algo começa a tomar forma e a tornar-se compreensível. O material responde a cada intervenção e essa resposta orienta o movimento seguinte, estabelecendo um processo contínuo de acção, percepção e adaptação.

A perspectiva fenomenológica de Maurice Merleau-Ponty permite compreender esta experiência a partir da inseparabilidade entre corpo e mundo. Não percebemos a matéria a partir de uma posição exterior, mas através de um corpo que está implicado na própria experiência. A mão que toca é simultaneamente uma mão que sente o que toca, estabelecendo-se uma relação de reciprocidade entre corpo e matéria. O barro, pela sua textura, temperatura, resistência, peso e plasticidade, modifica a experiência corporal e condiciona o gesto. Neste sentido, a matéria não constitui um elemento passivo que espera ser transformado pela vontade humana; participa no processo criativo ao oferecer resistências, possibilidades e respostas que exigem uma adaptação contínua.

As neurociências permitem aprofundar esta compreensão ao mostrar que a manipulação de um objecto envolve simultaneamente percepção táctil, propriocepção, controlo motor, integração sensorial e memória procedural. A mão não se limita a receber informação: move-se para conhecer. Rodeia, pressiona, pesa, desliza, compara e reconhece. A percepção háptica demonstra, assim, que conhecer é também uma forma de agir. No trabalho com o barro, este conhecimento manifesta-se através de pequenas decisões corporais que podem ocorrer antes de uma formulação consciente: aumentar ou diminuir a pressão, alterar o movimento, acompanhar uma deformação ou aceitar uma resistência inesperada. O processo criativo desenvolve-se, deste modo, numa relação dinâmica em que a mão explora a matéria e, simultaneamente, aprende com aquilo que a matéria lhe devolve.

Pode, por isso, falar-se de mãos que pensam, não no sentido de atribuir ao gesto uma actividade mental independente, mas de reconhecer que pensamento, percepção e acção constituem dimensões profundamente interligadas da experiência. O conhecimento produzido no contacto com o barro pode surgir inicialmente como sensação, ritmo, pressão, movimento ou escolha, antes de poder ser traduzido em palavras. A criação não resulta necessariamente da imposição de uma forma previamente imaginada; pode emergir progressivamente do diálogo entre o gesto e a resistência da matéria. O barro torna-se, assim, um interlocutor material, e o processo criativo uma experiência de descoberta na qual as mãos não apenas executam uma ideia, mas participam activamente na sua construção.

Fonte: Sentido – Arte e Saúde
Tradução Nossa.